Reflexões de uma mente transviada II: O rato roeu a massa do Cérebro em Roma.

“Papai dizia que o tempo era curto. Curto o suficiente para eu não perder tempo largando-me em corpos ausentes em formato de Sexton ou Bovary, entristecendo-me em pilhas de livros de romance que regavam como chafariz meus olhos em tarde de domingo. Era isso que papai dizia. Também dizia este senhor diabético, que deveria eu, tomar gotas de Água Rabelo para curar-me a ressaca (ou a preguiça ou a frieira ou a sinusite ou a hemorróida). Mas talvez dissesse que deveria ou que não deveria dever dinheiro ou chocolates ou prostitutas à sociedade… Que deveria recolher-me antes das vinte horas para não tomar ar frio. Creio que era isso que mamãe falava. Não, que papai falava! Sim, sim, era isso! Eu tinha que ficar até mais tarde na rua e não tomar ar frio por usar uma proteção de aço inox e ele estaria me filmando com todas as Tecpix já fabricadas e que foram instaladas por todo o meu percurso diário.
Lembro vagamente que sua mania de andar pela casa buscando comprimidos para sua eterna crise hipocondríaca era sempre completada com um ataque de ódio sobre a minha posição de segurar o talher. Nunca soube por que isso o odiava tanto até que um dia ele me enfiou uma faca no joelho. A cena foi horrenda e uma mulher que estava no local gritava que ele era louco e eu tive pesadelos. Acordei vários dias chorando quando lembrava dessa cena que vi em Linha Direta. Horrível.
A porca de buço avantajado que deitava a seu lado na cama riu de mim quando eu pedi para tocar clarinete na banda da escola. E quando eu decidi ser professor de literatura. E quando eu assumi ser gay. E quando eu vomitava o Novalgina e ela me fazia beber de novo. Lembro de sua gargalhada ecoando na minha orelha e isso me faz rosnar de nojo como o Sabujo Mecânico.
Mas morria de amores por papai! Ah, papai… Ele que acalentavam-me em seus braços contando histórias de ninar sobre como a vida era um queijo e o tempo o rato. As dores de cabeça eram necessárias quando o rato tocava o pedaço mais espesso do queijo e forçava a sua entrada… Hoje sinto falta de mamãe e das histórias que me contava durante a tarde depois de fazer os exercícios comigo e me dar biscoitos. Não… Era papai. Sempre papai. Até quando fiquei doente podia ouvir de um lado a risada amistosa e límpida de mamãe e do outro o tom carinho de papai.
Meu rato é alemão. Fora assim que chegou a minha sentença de morte. Um rapaz que morreu de estudar por quase onze anos da sua vida olhou em meus olhos em uma cadeira de plástico na fila do SUS e me afirmou que observava um rato em meus olhos corrompendo minha alma. Os roedores devoravam o queijo com tamanha vontade que, no final de tudo, fizeram uma ceia com massa cefálica e neurônios à milanesa.

Com amor,
Cérebro.” 

Barão de dois

Silêncio
a rua falava com os montes
como aquele brega que tocava na vitrola

[sorriam os dois
com faces rubras
desmistificando a existência do singular]

era fato este que
nem Deus
nem o diabo

ousavam aparecer e
ligar o ventilador

apagando o calor dos corpos
retirando o suor campestre

[dançavam os dois
com lábios colados
ignorando as moralizações]

os montes falavam com as ruas
como aquela bossa nova que tocava na vitrola
Silêncio

Engenharia às cinco horas.

Lembro-me do conjunto de paus
que formavam um molde sem arestas
com seus vértices desenhando um retângulo.

A figura geométrica reluzia em uma rua
arborizada com cactos e joios,
florida em uma terra de Espantalho sem cérebro
e fixada entre os casarões do Poço da Panela.

O sol do meio dia funcionava como no final da tarde
naquele lugar sem jardim:
não era forte porque
não tinha luz e
nem queimava a cabeça como na Agamenon.

Aos que caminhavam por ali –
que eram poucos, aliás –
admiravam-se das curvas que o vento fazia
dentro de um retângulo vazado:

“Obra com direito a assinatura
do Niemeyer…” dizia o vizinho da frente.

“… E com os detalhes de Landowski” acrescentava
sua mulher.

Lembro-me que por ali devo ter passado
uma vez ou talvez duas;
talvez duas não mais que três e
vi florescendo um trigo na calçada.

Tomado pelo espanto na primeira vez
o vi sendo sugado pelo joio na segunda
e enrolado ao cacto na terceira,
desisti do local.

Desisti também de entender o que faziam:
olhos nos lugares das janelas,
mãos nos lugares das maçanetas
e um cérebro no lugar do teto,
daquela figura geométrica.

Diziam para mim,
aqueles que ali passavam –
que eram poucos, aliás-
que por vezes um humano idoso
regava o trevo de quatro folhas
e ia embora.

Jurava para mim,
a menina Letícia [aquela carregada
de células leucêmicas],
que no lugar da porta haviam dentes
tão brancos e sorridentes quanto
dos africanos que habitavam a faculdade.

E que ali cabia, quem sabe
todos os meninos da Candelária
ou as lembranças das torturas na Casa da Cultura
ou os presos do Carandiru
ou uma janela no térreo para a Isabela
ou uma garagem segura para o João
ou um jarro para uma rosa murcha em Hiroshima
ou abajures alemãs feitos de plástico
ou uma cozinha para os cubanos
ou um prato de salada para os norte-americanos
ou um frasco de pimenta para os ameríndios
ou o mesmo frasco na vodka dos ucranianos
ou menos controles remotos para os asiáticos
ou mais desenhos animados para os africanos
ou paredes quentes para os habitantes do Ártico
ou um banheiro com piso antiderrapante para favelados
ou uma rede no terraço para o Ginsberg
ou uma cozinha sem fogão para a Plath
ou um quarto com cinzeiro para a Lispector
ou uma sala com piano para o Garoto de Ipanema
ou casinha para todos os beagle resgatados na Itália
ou brigas entre casais heterossexuais
ou orgias em todos os cômodos da casa por eles
ou carícias na cama de gays
ou cadeiras arremessadas que ferem os olhos da casa
ou o cheiro de café da tarde em Recife
ou o cheiro de chá britânico em Londres
ou…

“Ou o mundo todinho!” dizia ela,
rindo fazendo jus a seu nome
enquanto os cabelos que tocavam os pés
viravam lenços tocadores de chãos.

Até hoje sinto vontade de voltar lá,
Letícia me disse que ora as janelas
puxam-se como japoneses,
clareiam-se como russos,
escurecem-se como espanhóis.
Que as maçanetas ora dão tchau
como em Hollywood,
ora erguem o dedo médio
como em Brasília.

Talvez eu não tivesse força para fazer parte
de um mundo borderline,
de um mundo complicado,
de um mundo onde o mundo
está dentro de um mundo
que é um mundo dentro de outro mundo
fugindo de mundo qualquer.

De um mundo que pode ser
tudo que quiser ser e não ser
nada do que queiramos sentir.
Apenas trazendo a certeza
de que em uma suíte presidencial
com ar condicionado
escuta-se um barulho cardíaco.

Sinergia não divina.

Que evocada seja a sabedoria de um tungador!

Aquele ser, que por sinal de desesperança,
antes de padecer-se ou esfacelar-se de amargura,
busca em veias azuis de um braço negro
um conformismo a uma afirmação regressiva:

De onde tudo que se vê é minaz.

Que o ato de tungar ou repulsar a morte
é oportuno ao Deus, detentor de tais verdades
ou remete a seu encarregado mortal,
criador de vossas mentiras?

Palco Giratório

Desde a sexta feira (04/05) Recife foi invadido pelas artes! Começou o festival “Palco Giratório” que traz atrações de todas as partes para os diversos teatros da capital pernambucana. O festival promovido pelo SESC trouxe o teatrólogo italiano Eugênio Barba com “O eco do silêncio”. As apresentações estarão em cartaz até o dia 26 de maio e algumas delas estão dispostas de auto descrição e tradução para libras! As entradas custam R$12 (inteira) e R$6 (meia).

Veja a programação completa do Palco Giratório:

Lambe-lambe (intervenção)
Cia. Mútua (SC)
08/05 | terça-feira
17h | Sesc Santo Amaro

Pólvora e poesia
Hiperativa Comunicação e Cultura (BA)
08/05 |terça-feira
20h | Sesc Santo Amaro

Aluga-se um coração
Cia. Qualquer um dos dois (PE)
08/05 | terça-feira
21h | Teatro Luiz Mendonça

O pranto de Maria Parda
Paulo de Castro Produções (PE)
09/05 |quarta-feira
19h | Teatro Marco Camarotti

Pólvora e poesia
Hiperativa Comunicação e Cultura (BA)
09/05 |quarta-feira
20h | Teatro Hermilo Borba Filho

Este lado para cima
Brava Companhia (SP)
10/05 | quinta-feira
16h| Praça da Independência
Áudio-descrição e tradução em libras

Cabeção de nego
Laso Cia. de Dança (RJ)
10/05 | quinta-feira
21h| Teatro Barreto Júnior

O eco do silêncio
Demonstração de trabalho com Júlia Varley | Palestra “Aprender a aprender – A evolução técnica de um actor”, por Eugenio Barba (Odin Teatret – Dinamarca)
11/05 | sexta-feira
16h | Teatro Apolo

Este lado para cima
Brava Companhia (SP)
11/05 | sexta-feira
17h | Parque Dona Lindu
Áudio-descrição e tradução em libras

Caminhos
Laso Cia de Dança (RJ)
11/05 | sexta-feira
21h | Teatro Barreto Júnior

Vila Tarsila
Cia. Druw (SP)
12/05 | sábado
16h30 | Teatro Luiz Mendonça
Áudio-descrição e tradução em libras

Cru
Cia. Plágio de Teatro (DF)
12/05 | sábado
20h | Teatro Capiba

Vila Tarsila
Cia. Druw (SP)
13/05 | domingo
16h30| Teatro Luiz Mendonça
Áudio-descrição e tradução em libras

Divinas
Duas Companhias (PE)
13/05 | domingo
19h | Teatro Marco Camarotti
Áudio-descrição e tradução em libras

Menininha
JML em Companhia (RJ)
15/05 | terça-feira
16h30 | Teatro Marco Camarotti

Espaçamento
Dança Amorfa / Cláudio Lacerda (PE)
19h| Teatro Capiba

Espaçamento
15/05 | terça-feira
19h |Teatro Capiba
Dança Amorfa Cláudio Lacerda (PE)

Anjo negro
Cia. Teatro Mosaico (MT)
15/05 | terça-feira
21h| Teatro Luiz Mendonça

Roteiro escrito com a pena da galhofa e a tinta do inconformismo
Pausa Cia. (PR)
16/05 | quarta- feira
20h | Teatro Hermilo Borba Filho

Pai e filho
Pequena Companhia de Teatro (MA)
17/05|quinta-feira
19h |Teatro Marco Camarotti

Roteiro escrito com a pena da galhofa e a tinta do inconformismo
Pausa Cia. (PR)
17/05 | quinta-feira
20h | Teatro Hermilo Borba Filho

Dia desmanchado
Teatro Torto (RS)
17/05 | quinta-feira
21h | Teatro Barreto Júnior

Prisão para a liberdade – Demonstração técnica do trabalho de Carlos Simioni
Lume (SP)
18 |  sexta-feira
16h| Teatro Capiba

Pai e filho
Pequena Companhia de Teatro (MA)
18/05 | sexta-feira
19h |Teatro Marco Camarotti

Dia desmanchado
Teatro Torto (RS)
18/05 | sexta-feira
21h|Teatro Barreto Júnior

Algodão doce
Mão Molenga (PE)
19/05 | sábado
16h30, Teatro Marco Camarotti
Áudio-descrição e tradução em libras

Instantâneos
Cia. dos Bondrés (RJ)
19/05 | sábado
20h| Teatro Hermilo Borba Filho

As levianinhas em pocket show para crianças
Cia Animé (PE)
20/05| domingo
16h30 | Teatro Marco  Camarotti

Círculos que não se fecham
Escola Pernambucana de Circo (PE)
20/05 | domingo
19h | Sede da Escola Pernambucana de Circo

Louça Cinderella (Palco REC-POA)
Cia. Gente Falante (RS)
22 | terça-feira
19h | Teatro Marco Camarotti

Catrevage
Grupo Andanças Sesc Caruaru (PE)
22 | terça-feira
21h|Teatro Barreto Júnior

Xirê das águas (Palco REC-POA)
Cia. Gente Falante (RS)
23/05, quarta-feira
19h | Teatro Marco Camarotti

Play Beckett (Palco REC-POA)
GrupoJogo de Experimentação Cênica (RS)
24/05| quinta-feira
21h | Teatro Barreto Júnior
Classificação etária: 12 anos | Gênero Dança /Teatro | Duração: 52 minutos

A barca
Grupo Grial de Dança (PE)
25/05 | sexta-feira
17h| Praça do Campo Santo

Travessia (Trilogia Uma história, duas ou três – Parte II)
Grupo Grial de Dança (PE)
26/05 | sábado
19h e 21h |  Sesc Casa Amarela

Guarda sonhos
Grupo Peleja (PE)
26/05 | sábado
19h | Teatro Capiba

Fonte: http://www.pernambuco.com/ultimas/nota.asp?materia=20120507143437&assunto=101&onde=Viver

Dica de música II

Lindeza demais! Hahahaha.

Dica de música I

 

Vale muito a pena! Confiram.